Quintais : pipas e varais.
O reflexo de uma preocupação cada vez mais visível, qual seja, a da vida nas cidades, permeia os trabalhos de Kátia Fiera. O espaço urbano, condição de definição da vida na cidade, é permanentemente visto e revisto e, continuamente, apresenta os choques e embates das lutas, nem sempre silenciosas que nele se travam.
Um quintal em plena Galeria ou, no mínimo, uma provocação – feita a todos aqueles que por lá passam – para que convivam com lembranças e memórias por ela acionadas. Assim poderia ser descrita a proposta dos trabalhos apresentados. Brancas pipas e tecidos esvoaçantes povoam o espaço da galeria. Dessa forma, a vida doméstica convive com o espaço destinado ao lazer e às brincadeiras.
Já de início, quando nos deparamos com esse arranjo, somos conduzidos a uma reflexão sobre a cidade. Ao exibir trabalhos que evidenciam o espaço aberto e ao dispor e inserir elementos no espaço fechado da galeria, somos levados a pensar na possibilidade de uma inversão de lugares, o dentro e o fora. A partir daí, diferentes questionamentos sobre a vida em conglomerados urbanos, um espaço por si mesmo caracterizado como o da contradição, podem surgir.
O universo de imagens elaboradas e trabalhadas pela artista ocupou, até o presente, superfícies que pudessem recebê-las e fixá-las e, com sua delicadeza, estas se mantinham aprisionadas em pequenos recortes de um mundo interior materializado em sutis e negras linhas sobre a superfície branca. A transparência, recurso assumidamente estratégico da artista, é um elemento revelador do gesto e de uma ação que se exibe como uma superação de outros atributos inerentes àquela categoria. O desenho, assim, parece rasgar e romper a materialidade do suporte, atravessando a transparência e ganhando, dessa forma, o espaço.
Essas superfícies - o papel e o tecido brancos - se prestam, aqui, a toda sorte de escrita visual. Povoam-se de sinais, impressões, traços e grafismos que transformam elementos e signos. Ao produzir discursos sobre a cidade e sobre a visão fragmentada de quem a observa a partir de deslocamentos quotidianos, evidenciam-se, também, fragilidades que assumem nuances de transparência e leveza.
As imaculadas superfícies brancas estão povoadas de suaves imagens. São torres de eletricidade e pipas, cercas, varais e roupas em quintais, mas há, também, antenas de televisão, casas simples de tijolos à vista, barracos e palafitas. Todas e cada uma delas nos remetem a um infindável universo que é o de nossas cidades e seus contrastes. Energia, vitalidade, violência, instabilidade, insegurança e um permanente estado de tensão. Não é, portanto, desprovido de sentido que, por entre essas delicadas representações da urbanidade, surjam referências mais explícitas do nosso mundo contemporâneo: a da guerra.
Os atentados e o terrorismo que são cotidianamente explorados pelas mídias não são, apenas, emblemáticos desse cotidiano aparentemente distante. Imagens bélicas de helicópteros, bombas, torres de petróleo e explosões apresentam-se, assim, como uma evidente alusão à violência, no entanto, essas imagens refletem, também, a tensão entre acontecimentos locais e globais, muitas vezes, presentes no nosso entorno.
A articulação dos trabalhos no espaço da galeria cria, em nós, uma sensação de estranhamento, não só pela imediata compreensão do jogo proposto na inserção dos objetos - pipas e varais - mas, fundamentalmente, por criar uma atmosfera onírica e de convite ao prazer do deslocamento nesse espaço.
É possível caminhar por entre os varais instalados no quintal/galeria e deslocar o olhar para o céu trazido para o interior do edifício pela inserção das pipas, em pleno vôo, no teto do espaço e, ao mesmo tempo, nostálgica e melancolicamente, podemos mergulhar nessa atmosfera, sendo levados a cada imagem, a cada superposição, a cada fragmento que se desprendem das camadas de transparências a perscrutar a alma desse organismo vivo, pulsante e, por vezes, incompreensível que é a cidade.
Na proposta da artista para intervir no espaço da cidade e na percepção que as pessoas têm de seu espaço, não há um sentimento ou uma constatação niilista. Não, tampouco, uma apologia apocalíptica da destruição, ao contrário, cada uma das imagens e, em particular, o conjunto articulado como um quintal, constitui-se em um projeto de esperança, em crença na possibilidade. Talvez, uma pequena utopia, um desejo de vida, uma forma poética de declarar sua credibilidade no ser humano.
Marcos Moraes
Coordenador do Curso de Artes Plásticas da FAAP
Professor de História da Arte das faculdades FAAP e Santa Marcelina
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