Em parceria com Leo Bahia, apresento a minha
nova produção de pinturas à qual me dediquei exclusivamente
para esta primeira exposição individual que realizo em Belo
Horizonte.
Esta mostra representa minha volta ao Brasil, depois de ter morado sete
anos em NY, onde me dediquei ao oficio de aprender a pintar a óleo.
A técnica que desenvolvi, desde criança, com o manejo do
pastel, resultou numa aproximação muito curiosa entre o
desenho e a pintura. Não foram poucas as ocasiões em que
surpreendi pessoas que pensavam que meus desenhos eram pinturas.
De volta ao Brasil, desta vez escolhi São Paulo para morar e prosseguir
na minha pesquisa de pintura a óleo. Logo no início da minha
volta, precisei fazer uma viagem de trabalho ao Nordeste, acompanhando
minha grande amiga e artista Numa Ciro para quem tinha criado o cenário
e o figurino de seu show. Fiquei muito entusiasmado com o convite, pois
fazia vinte anos que não visitava o Nordeste.
Nasci em Olinda, PE, mas a minha família mudou-se para o Rio de
Janeiro quando eu tinha apenas nove meses de idade. Assim, mesmo tendo
sido criado no Rio, a cultura e os costumes nordestinos sempre estiveram
presentes na minha vida a maior parte do tempo, através da convivência
familiar.
Em seguida às apresentações do espetáculo,
aproveitei para ir visitar um grande amigo, Delson Uchoa, em Maceió,
e foi maravilhoso!!! Conversamos durante muitos dias sobre a pintura,
a cor, o prazer e a batalha de poder trabalhar com tudo isso. Muitas inspirações
surgiram ali, naquele momento. Havia um sentimento muito forte de estar
realmente de volta às origens até então longinquas
em memórias já desfocadas.
Visitei vários pontos de artesanatos locais. Sempre fui fã
do trabalho das bordadeiras que transformam linhos brancos sedutores em
magníficos bordados. Fui arremessado imediatamente à minha
infância. Lembranças de férias com minha avó,
suas agulhas e linhas; ternos, camisas, toalhas de mesa, paninhos, guardanapos,
colchas e mais: tudo de linho, tudo muito bem passado e devidamente engomado
(costume nordestino de colocar goma nas roupas que iriam ser passadas
a ferro para dar o caimento perfeito do tecido).
Foi difícil, a princípio, encontrar o modo certo para expressar
o que eu imaginava e queria sobre um tema já tão explorado.
Cada pano veio devidamente dobrado e engomado. Peguei um a um e os abri
para serem fotografados, conservando suas dobras (ou rugas) adquiridas.
Preparei a luz e os fotografei, congelando aquele simples momento cheio
de memórias.
Esta série de pinturas fala da memória e do tempo preciso
para que certas feridas se transformem em cicatrizes. Ela diz que os bordados
nos panos de linho e suas dobras são retratos das marcas deixadas
em nossos corpos e nas nossas vidas. Estes quadros sugerem, ainda, que
as cicatrizes do corpo podem ser apreciadas como bordados no linho da
nossa pele, cortes em processo de cicatrização à
espera de seu fechamento
pelas marcas adquiridas.
Dedico esta exposição à artista fantástica,
amiga e parceira Numa Ciro.
PROCESSO DE TRABALHO:
Tendo a foto de cada pano revelada em papel para servirem de referência,
eu pego cada pano referente à sua foto e passo um a um a ferro
quente, retirando assim todas as suas marcas e dobras de antes. Em seguida,
colo cada pano em uma madeira deixando-os completamente lisos sem as suas
marcas anteriores. Depois de cada pano ter sido preparado devidamente
para ser pintado, eu começo, então, a trazê-los de
volta, re-pintando com tinta a óleo suas marcas anteriores - as
luzes, as sombras, as dobras ou rugas -, dando assim o efeito ilusório
desejado, ou seja, a pintura, aquelas marcas que foram ali perpetuadas
na sua própria simplicidade. O pano, neste caso, é mais
do que um simples suporte, pois eles se representam a si mesmos na pintura.
exposição Hildebrando
de Castro
abertura: 27/10/2005
até: 03/12/2005
horário: seg/sex, 10-19h; sáb, 11-14h |