CONVERSADOR
A.S.
— Você sabe que existem duas viagens:
uma vez você quer se deslocar de onde você está, outra
vez é quando o lugar que você está não existe
mais. É como uma estrada sendo engolida pela floresta; a entropia
está sempre vindo atrás.
— Vejo a floresta chegando. Eu sei, mas não olhei para trás,
não é assim que vi. Estou com taquicardia. A minha rota
não é fixa. A cada novo elemento redireciono o vetor de
meu movimento. A seqüência de pontos que se forma nunca existiu
antes; o que escolho flutua. Há curvas que nos esbarram, então
eu não estou procurando: há curvas que nos esbarram. Tenho
uma caderneta cheia de notas de viagem. É a couraça da nave.
— Uma máquina solar deliciosamente
indecifrável. Por que haveria de decifrá-la afinal?
— Para descobrir que ela apenas está no meu caminho. Porque, se
eu caminhar, vou ter que lidar com o fato de que muita coisa está
no meu caminho. A floresta se empurrando para dentro de meus bolsos. Andei
muito e se não continuasse andando não seriam mais vestígios:
seria a floresta. E eu não seria transamazônica.
— Mostra-se uma parte. Apenas uma amostra.
O resto segue um enigma. Aliás, o resto não importa, a não
ser que se possa adivinhá-lo ou melhor inventá-lo.
— Não sei como começa. Mas, quando dou por mim, já
sou parte de um desejo imenso que ninguém consegue mais impedir.
Entra rasgando este maldito animal que não posso dominar. À
beira do instante seguinte encontro caído um raio de coisa intangível
e muitas naturezas se apresentam.
— Um bom viajante abraça os inúmeros
mundos e cada um tem sua lei e espectro de possibilidades. No turbilhão
do mal-estar que domina o corpo, atento à natureza crua das enzimas
metabólicas, experimentando, o viajante se reorganiza.
— Os pobres limites aqui repousam cumprindo uma função
inofensiva. Uma vez retirados, infinitamente mais fortes, ameaçam
a lógica de uma outra certeza. E a minha certeza agora me ameaça.
Já não posso nela confiar. Minha certeza pôs os mundos
de ponta cabeça e já não posso nela confiar. Ave,
Nave. Me levou e não vai mais me trazer.
— Absolutamente nada a impediria de colocar
sobre os ombros este colossal pedaço de mundo. Mas ele muito mais
diz por estar esticado até onde lhe foi possível, deixado.
— Por onde andei nunca me bastou ali estar, sempre o lugar onde estive
foi termo de conquistas feitas em outras paragens. Ao final de minha jornada
tenho uma caderneta cheia de notas. Sei que fiz um longo passeio. Pode
ser que lendo se descubra que nada terei a dizer. Meu encouraçado
são notas brancas. Onde estive havia uma beleza suspensa que terei
de realizar. Ou então ela me sufoca. O contorno destes caminhos
em mim é altivo. Sereno. Austero. E a cor é forte, uma cor
que encarde. Estou encardida deste rubor de viagem, esta nave impura que
naveguei e que foi impregnando minha roupa e enchendo meus bolsos dia
após dia, noite após noite em que, ao me deitar, precisava
esvaziar os bolsos e assim antes de finalmente adormecer, um forte suspiro.
Um ar que entra e sai, vigoroso, uma tentativa de desgarrar tudo de dentro
e ter força para no dia seguinte conseguir continuar com a mesma
intensidade do inesperado, a necessidade do inesperado, o completo auto
domínio que permitirá do inesperado semear em mim alguma
coisa.
— Temos direito ao vetor. O que tangencia apenas
vem.
exposição Temos
direito ao vetor. O que tangencia apenas vem. Eu Vou dizer de novo. Temos
direito ao vetor. O que tangencia apenas vem.
abertura: 15/09/2005
até: 15/10/2005
horário: seg/sex, 10-19h; sáb, 11-14h |